Projeto Mais Água

Em 13/08/2015 | Por: Comunicação COFASPI

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O processo de consolidação da segurança alimentar e nutricional das famílias do semiárido na atualidade depende significativamente da viabilização de atividades de produção “agrossilvipastoris” visando a alimentação familiar e a comercialização de excedentes, principalmente quando o processo produtivo se insere em uma perspectiva solidária e agroecológica de convivência com o clima da região. As causas históricas da  insegurança alimentar e nutricional de grande parte das famílias se assenta no estabelecimento de uma concepção de inviabilidade produtiva e na adoção de sistemas produtivos inapropriados.

No semiárido, apesar da má distribuição temporal e espacial das chuvas, as precipitações anuais são suficientes para desenvolver uma série de atividades produtivas, a exemplo da pequena pecuária e produção de hortaliças e frutas, como demonstrado por agricultores/as familiares nas diferentes regiões do semiárido brasileiro.

Para tanto, é necessário que a água precipitada nos três a quatro meses chuvosos seja captada e estocada. O pouco aproveitamento da água de chuva aumenta a “escassez de água” determinando baixo desempenho das atividades agrícola e pecuária que, por consequência, contribui para que a renda dos agricultores familiares seja reduzida. As pequenas propriedades da zona rural do Estado não estão dotadas de infraestrutura hídrica suficiente para atender as demandas de consumo animal ou para a produção de hortaliças e fruteiras. Dotar essas propriedades de reservatórios construídos a partir de técnicas apropriadas às condições do clima semiárido aumenta sua capacidade produtiva assegurando a permanência das famílias beneficiárias no campo. 

O projeto Mais Água, executado em parceria pela COFASPI em parceria com o Governo do Estado da Bahia, entende que a captação de água para produção de alimentos e dessedentação animal é crucial para uma verdadeira convivência com o semiárido. Afinal, tais tecnologias gera, além do acesso aos recursos hídricos, soluções diversificadas que geram um impacto extremamente positivo na vida do povo sertanejos.

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O projeto mais água estimula também a produção agroecológica. Ao incentivar o uso de tecnologias sustentáveis e práticas de manejo da caatinga, o projeto respeita o Semiárido e seus vários ecossistemas. Atualmente, a Entidade já conta com um grande acervo de tecnologias e conhecimentos apropriados, que nascem das experiências produtivas dos próprios agricultores familiares mediante o uso das tecnologias e convivência dos recursos naturais disponíveis na região.

Nesse sentido o Projeto Mais Água da COFASPI estimula e fortalece a agricultura familiar e camponesa no Semiárido brasileiro baiano através de práticas sustentáveis, como manejo de caatinga, criação de caprinos e ovinos, lavouras agroecológicas, etc.

A integração dessas atividades com as tecnologias disposnibilizadas pelo projeto forma um sistema de produção mais racional e consciente da necessidade que os sujeitos se integrem com o desenvolvimento do seu meio.

A seguir breve descrição das tecnologias a serem implementadas:

Barreiro trincheira – os barreiros trincheira familiares são tanques longos, estreitos e fundos, em formato de trincheira, escavados no subsolo. Para que a evaporação seja reduzida, a construção dos barreiros deve se orientar pelos seguintes princípios: o comprimento deve ter de 30 a 35 metros e a largura de 5 metros para que a lâmina d’água seja pequena e com isso a ação dos ventos e do sol sobre a água seja menor, diminuindo a evaporação. Dependendo do tipo de solo, o barreiro poderá ser mais profundo, diminuindo o seu comprimento. A profundidade mínima deve ser de 4 metros. Quanto mais profundo melhor, para que a água fique mais fria, reduzindo  desse  modo  a  evaporação. O barreiro trincheira, para que funcione bem e seja de qualidade, deve ser construído em terreno que segure água. Portanto o terreno deve ser escolhido com muito cuidado.

Essa tecnologia tem por finalidade o armazenamento de água da chuva para matar a sede dos animais como também para que a família beneficiária tenha um “quintal produtivo” com verduras, legumes e frutas que ajudarão na alimentação e melhoria da saúde e garanta, desse modo, a segurança alimentar e nutricional das pessoas. Se houver sobras da produção, elas podem ser comercializadas.

Para proteger o pomar e as hortas, uma área ao redor do barreiro trincheira deve ser cercada. É recomendado também que se construa um bebedouro para os animais. Por ser profundo, o barreiro se torna perigoso para crianças e adultos; deve-se, portanto, construir outra cerca de tela ou de madeira ao redor do barreiro.

As famílias que recebem um barreiro trincheira participam de um curso em que se discutirá o uso racional da água e técnicas de cultivo de hortaliças. Também serão orientadas durante as visitas técnicas e outros intercâmbios realizados para troca de experiências entre agricultores/as.

Os barreiros trincheira comunitários são desenvolvidos com essas dimensões ampliadas e chegam a acumular 1 milhão e seiscentos mil litros de água, beneficiando a produção de cerca de vinte famílias.

Limpeza de aguadas – outra obra importante do Projeto é a limpeza das aguadas já existentes nas propriedades dos agricultores. Em geral elas são largas e rasas com uma grande lâmina d’água. A limpeza deve ser feita, na medida do possível, obedecendo às mesmas técnicas da construção dos barreiros trincheira. A preocupação é sempre tornar estes tanques mais fundos e menos largos, para aumentar o espaço de acumulação da água de chuva e evitar a evaporação.

Para a proteção da aguada e das pessoas, recomenda-se que sejam feitas cercas iguais às sugeridas para os barreiros trincheira. As famílias beneficiadas com a limpeza de aguadas também devem plantar árvores frutíferas e produzir hortaliças.

Cisterna de produção tem capacidade de estocar 50 mil litros de água. Ela mede 6m de diâmetro e 2m de profundidade. É construída totalmente dentro da terra, ficando somente a cobertura de forma cônica acima da superfície. A água de chuva que escorre pela terra, antes de entrar para a cisterna, passará por duas pequenas caixas, uma seguida da outra. A função dessas caixas é reter a terra e a areia que vêm junto com a água para que elas não cheguem ao fundo da cisterna. É importante verificar se a área é suficiente para sua construção.

As cisternas de produção de enxurrada enchem com muita facilidade, fato importante considerando que mesmo com poucas chuvas elas poderão repor o volume durante todo o período chuvoso.

A retirada da água da cisterna é feita por meio de uma bomba de repuxo manual.  As famílias beneficiárias receberão informações sobre como usar a água com cuidado, evitando desperdício. A água se destinará à dessedentação de um pequeno rebanho de cabras ou ovelhas e ainda para irrigar um ou dois canteiros econômicos para a produção de verduras.

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Bomba d’Água Popular (BAP)é uma tecnologia importante para poços “artesianos” de baixa vazão em que não compensa a instalação de um conjunto de motor e bomba para a retirada da água. Por ser manual e exigir pouco esforço para funcionar a BAP se torna uma ótima alternativa de bombeamento.

Ela é resistente, feita com material durável, fácil de instalar e de manusear. Além do baixo custo de manutenção, a operação da BAP é econômica, pois não gasta combustível ou energia elétrica para o seu funcionamento. A água retirada deverá ser destinada a matar a sede dos animais e a irrigar pequenas hortas e pomar.

Tanques de Pedra – construídos em “lajedos” que afloram na superfície do solo através da limpeza de fendas e levantamento de paredes no entorno dessas fendas. Embora tenha um alto nível de variabilidade, essa tecnologia pode acumular volumes de água de chuva consideráveis e suficientes para suprir a necessidade de consumo de água da casa, dessedentação de animais, plantio de hortas e um pequeno pomar.

Barragem subterrânea – é construída em áreas de baixios, córregos e riachos que se formam no inverno. Sua construção é feita escavando-se uma vala até a camada impermeável do solo, a rocha. Essa vala é forrada por uma lona de plástico e depois fechada novamente. Por fim, é construído o sangradouro de alvenaria na parte onde a água passa com mais força e por onde o excesso dela vai escorrer. Dessa forma, cria-se uma barreira que “segura” a água da chuva, que escorre por baixo da terra, deixando a área encharcada.

A aproximadamente 5m de distância do barramento é construído um poço que servirá para retirar o excesso de água armazenada na barragem. Essa água poderá ser utilizada para pequenas irrigações, possibilitando que as famílias continuem produzido mesmo nos períodos mais secos do ano. Dependendo do tipo de cultura implantada, pode-se ter mais de uma colheita por ano. (Programa Uma Terra e Duas Águas – ASAcom/ASABrasil)

O presente Projeto dará continuidade a uma série de benefícios de cunho social, econômico, ambiental e cultural já experimentados no Projeto Aguadas. Socioeconomicamente o projeto possibilita a geração de renda familiar através de agricultura, pecuária, silvicultura e matérias primas diversificadas; incentiva e promove a utilização de tecnologias de baixo custo, a exemplo de irrigação por gotejamento e hortas econômicas, aquecendo o mercado local; facilita a integração produtiva com outras políticas públicas para a agricultura familiar e a economia solidária; as tecnologias são simples, pequenas e suficientes, de baixo custo e fácil de serem apropriadas pelos beneficiários.

Ambientalmente o projeto fomenta e possibilita a produção baseada nos princípios agroecológicos, estimulando o aumento da biodiversidade; evita o desmatamento, gerando alternativas de renda para as famílias; não interfere negativamente no fluxo hídrico; evita a perfuração de poços em casos desnecessários; umedece o solo de forma gradativa, favorecendo sua estrutura física, química e biológica e, ainda realiza o plantio de mudas nativas conjuntamente com todas as tecnologias desenvolvidas.

O projeto também gera benefícios culturais, psicossociais e de saúde familiar ao aumentar a autoestima das famílias devido à possibilidade produtiva. Promove, ainda, a autonomia política, através da não dependência dos “carros-pipa” devido à geração de renda; a integração familiar e facilita a permanência das famílias em suas comunidades; e incentiva o consumo de alimentos saudáveis produzidos localmente.

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